Não virou laço, nem deixou nó
Comprei um vestido novo para me distrair.
Ele é assim: lindo, nude e cheio de amarrações que terminam com um laço.
Adoro laços. Talvez porque na vida real seja tão difícil fazê-los ficarem firmes eu fique tentando encher meu armário com várias peças que remetam a essas certezas imaginárias. Com fofurices e distrações é que vamos vivendo e driblando as mini-crises.
A única coisa que eu sabia sobre a gente é que não ia dar certo. Mas eu queria que desse, ó se queria.
A parte de mim que sabia, fingia que não era com ela.
Ela queria que a parte iludida descobrisse por conta própria.
Só para no final olhar superior e dizer: “Alá sabia”.
Conhecer você era como descobrir um segredo por dia e pensar: “ah então é assim?” E eu ia ligando os fatos que você contava, com os que eu via enquanto tentava chegar a uma conclusão soberana.
Fingia distração, mas analisava cada suspiro que você dava. Era tudo leve, gostoso e pronto para virar um belíssimo laço. Mas não virava.
E lá vinha você com a blusa de fio verde mais linda da história das blusas de fios verdes. E tinha um jeito que encantava e um sorriso que derretia meu mau humor.
E eu pensava: “Como que pode não dar certo? Olha para ele”.
Vai dar sim. E as duas partes olhavam, mas só uma via.
Mas a que via ficava quieta para outra ser feliz um pouquinho.
E você chegava de novo com uma camiseta vermelha mais linda da história das camisetas vermelhas e bronzeado como quem acabou de chegar do verão europeu, sem ter saído de São Paulo.
E como que podia não dar certo? Impossível. E as duas partes olhavam, mas só uma via.
A que não via, flutuava. A que via, calava.
E você continuou desfilando sorrisos, camisetas e abraços. E eu ficava tentando achar um motivo para me convencer o porquê da gente não virar o mais lindo laço do mundo. E nada.
Tudo era brando e sem consequências.E meses se passaram enquanto eu buscava o motivo que sempre esteve ali. Quietinho esperando a hora de aparecer.
Tudo que é muito leve tende a ficar bobo e laços são firmes e consistentes. Não era o nosso caso.
E quando a parte que acreditava finalmente conseguiu ver o que a outra já tinha visto, houve um acordo instantâneo e concluímos que apesar de não virar laço, não ficaria um nó. Ufa.
O mais engraçado é que não tenho saudade de você, tenho saudade de mim sentindo saudade de quem eu achava que você era.
Foi tão bom me iludir um pouquinho.


