Um vestido nada Católico
Eu tinha prometido, jurado e quase sacramentado em cartório que não ia mais gastar dinheiro com o que não fosse absolutamente necessário. Mas em frente a uma vitrine deslumbrante, todo mundo muda de ideia.
Eu só tinha ido ao shopping para almoçar, era para ser rápido e sem consequências, mas uma coisa eu aprendi na vida (talvez a única coisa) se você não quer gastar, não entre num shopping, existem mil lugares ao ar livre para comer. E quando vi lá estava ele: brilhando na vitrine.
Vestidos brilham igual cachorrinhos em loja do Pet Shop quando querem ir para casa com a gente. Tá, não vou comprar, só quero saber o preço, entrei num acordo rápido comigo, para poder vê-lo de pertinho.
Eu: – Oi.
Vendedora: - Oi.
Eu: - Posso ver o vestido da vitrine?
Vendedora: - Qual sua numeração?
Eu: - 38.
Vendedora: - Infelizmente não tenho mais.
Eu: - O da vitrine deve ser meu número.
Vendedora: - Mas esse não posso tirar, só na terça.
Vocês estão acompanhando bem o absurdo desse diálogo?
Eu: - Tá brincando, né? - Falei cheia de esperança.
Vendedora: - Normas da loja, não mexemos em peças da vitrine. Ela falou com a emoção de uma vaquinha de presépio.
Fiquei parada tentando absorver a informação sem surtar, mas daí pensei: só pode ser Deus me enviando um sinal. Não era para eu gastar mesmo. Aleluia. Agora imaginem Deus lá no céu ticando a lista de prioridades do dia e entre elas, essa:“Lembrar de colocar aquele vestido lindo, curto e decotado na vitrine daquela loja que é proibido tirar peças da vitrine, para minha filha não gastar”.
Sai de lá feliz porque era a primeira vez que uma loja me ajudava a economizar. Era como ter vivido um amor proibido e rápido na hora do almoço. Achei que ficaria tudo bem, mas daquele momento em diante nada mais fazia sentido sem ele e eu precisava de um vestido para a festa de Ano Novo, era uma necessidade. Só que ainda era quinta, e pelas normas mundiais das lojas que não querem vender, só poderia experimentá-lo na terça. Inconformada, resolvi insistir e liguei para a loja só para dar uma pressionada.
Agora prestem atenção na surpresa: a vendedora que atendeu o telefone achou facilmente meu tamanho e com maior simpatia do mundo e ainda disse que, caso fosse necessário mandaria buscar em outra loja. Fui ligando um fato aqui, outro ali, e conluí que Deus devia ter mais o que fazer do que enviar sinalzinho atráves de vendedora preguiçosa. Palmas! Parecia cena de novela eu caindo na real. Sabe cara de quem entendeu tudo? Me deu uma raiva, uma vontade de voltar lá ainda xingar a vendedora que me atendeu.
“Vaquinhas de presépio são tão bonitinhas, no presépio. Sabia, minha filha?”
Fiquei tramando vinganças, se Deus não tinha nada mesmo a ver com aquilo, podia fazer o Diabo. Acabei não fazendo nada além de pedir para menina bacana reservar e deixar no nome dela a venda, só para eu ir buscar no horário da outra e fazer ela se mexer sem ganhar nada com isso. Ela merecia mais, mas tô sem tempo. Lindo, curto, decotado e sem sair da vitrine ele já semeava a discórdia.
Só digo uma coisa: que Deus olhe sempre por mim, mas que na noite de Reveillon ele tenha bastante trabalho e só me veja de manhã seguinte, quando eu já estiver dormindo como um anjo, de pijaminha floral. Porque meu vestido não é nada católico.


