Música | 30 anos sem Elis Regina

Trinta anos. Não poderíamos falar das nossas musas da sem lembrar o tempo que estamos sem . Quando ela se foi, no dia 19 de janeiro de 1982, com apenas 36 anos, ainda faltava um bom tempo para que eu nascesse e fosse apresentada às suas canções. Isso não impediu, no entanto, que viesse a me tornar admiradora e apaixonada pela melhor cantora brasileira de todos os tempos.

A menina de Porto Alegre, que começou em um programa infantil de sua cidade aos 11 anos e aos 16 já havia lançado seu primeiro LP, conquista de vez o público nos grandes festivais de música dos anos 60, com seu talento e suas interpretações quase sempre dramáticas. Em 1965, com apenas 20 anos, venceu o , na extinta TV Excelsior, com a música “Arrastão” - de ninguém menos que Edu Lobo e Vinícius de Moraes.

Elis cantou e lançou nomes da música brasileira até então desconhecidos, como Ivan Lins, Renato Teixeira, Gilberto Gil, Aldir Blanc, João Bosco e Milton Nascimento, de quem foi grande amiga. Topetuda que só ela, se negou a gravar em um festival a música de um tal Chico Buarque, impaciente com a timidez do rapazote. Abriu a brecha para Nara Leão lançar o moço.

No mesmo ano de seu primeiro festival, assinou contrato com a TV Record, apresentando ao lado de Jair Rodrigues um dos programas musicais mais memoráveis da história da TV brasileira, o semanal “O Fino da Bossa”. Infelizmente muito desse material foi perdido em um incêndio na emissora, em 1966. A parceria com Jair e o sucesso do programa, com o show “Elis, Jair e Jongo Trio”, deram origem ao LP “Dois na Bossa” – o primeiro disco brasileiro a passar a marca de 1 milhão de cópias.

Parceria, afinal de contas, é o que não faltou na carreira da Pimentinha de sorriso largo. Para citar apenas algumas, Elis soltou a voz ao lado de Simonal, Rita Lee, Maria Bethânia, Tim Maia, Hermeto Pascoal, e do parceiro que considero o mais memorável: , com quem lançou o disco “Elis e Tom“, em 1974. É neste álbum, inclusive, que está uma das minhas músicas favoritas: “Águas de Março”. No fim das contas, a discografia de Elis soma o total de notáveis 4 milhões de cópias vendidas entre 27 LPs, catorze compactos simples e seis duplos. Como a própria Elis dizia, “cantar pra mim é sacerdócio. O resto é o resto”.

Mas não só de flores e aplausos é feita a carreira de uma artista como Elis Regina. Apesar de não ter sido exilada nem presa durante o período da Ditadura Militar, salva por sua popularidade, ela ainda encontrou brechas para o engajamento político. A cantora foi a voz da campanha pela anistia de exilados brasileiros. Tornou “O Bêbado e o Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, um hino.

Por outras vertentes, Elis foi pioneira na luta pelo direito dos músicos brasileiros. Foi a primeira a inscrever a própria voz como instrumento na Ordem dos Músicos do Brasil, além de ter presidido a Associação de Intérpretes e Músicos.

Elis também participou do especial 80, exibido em 1979 na TV Globo. O programa consistia em uma série de entrevistas e musicais que tinham como tema central a mulher e a discussão do papel feminino na sociedade. O especial contou com a participação de grandes personalidades femininas da época, sobretudo no contexto da música nacional, no qual cada vez mais se destacavam as mulheres, como as cantoras Maria Bethânia, Rita Lee, Simone, Marina Lima, Fafá de Belém, Gal Costa, Joanna e Zezé Mota, além das atrizes Regina Duarte e Narjara Turetta.

Essa é uma das entrevistas mais emocionantes de Elis Regina. Nela, a cantora fala sobre sua timidez, os desafios com seu início precoce no showbiz, suas angústias, seus amores – os filhos João Marcelo Boscoli, do primeiro casamento com o compositor e produtor musical Ronaldo Boscoli, Pedro Mariano e , de seu segundo casamento, com o pianista César Camargo Mariano – e sua paixão pela música. No vídeo, ela faz uma declaração de amor à filha: “não sei o que quero pra ela. Queria tanta coisa legal. Que ela ria muito, que ela não fique pesada nunca”.

A homenagem de Maria Rita à mãe vem a público esse ano, com a turnê gratuita “Viva Elis”. Com produção do irmão João Marcelo Boscoli, é a primeira vez que Maria Rita sobe aos palcos para cantar músicas eternizadas na voz de Elis Regina. Além da apresentação, o projeto envolve uma exposição itinerante, um documentário e a criação do site. Cinco cidades receberão a turnê – Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro -, que tem início dia 24 de março, na capital gaúcha. Para quem, como eu, não teve o prazer de assistir Elis ao vivo, é uma oportunidade de chegar o mais próximo possível desse sonho.

No fim das contas, é sempre difícil parar de falar de Elis Regina. Sempre falta alguma música, alguma história, alguma gargalhada que adoraríamos relembrar e eternizar. Assim como é dura a falta que faz a própria. Consola saber que Elis é coisa nossa. Elis é nossa unanimidade.