Política | Oprah Winfrey e o american dream

Oprah Winfrey é uma verdadeira Cinderela de ébano. Sua história de vida, marcada por fatos trágicos e por grandes conquistas prova por A mais B que o chamado “sonho americano” é possível. Ranqueada como a afroamericana mais rica do século XX, a negra filantropa mais importante da história da América e, por um tempo, a única bilionária negra, Oprah Winfrey é a mulher mais influente do mundo.

Com 58 anos e uma carreira de mais de 25 anos à frente do programa mais assistido de todos os tempos, Oprah segue atualmente como uma das mulheres mais amadas do planeta, e é uma das formadoras de opinião mais importantes dos Estados Unidos e claro, de todo o mundo. Foi também a primeira afrodescendente a integrar o seleto grupo de mais ricos da revista Forbes.

Não é à toa que seu apoio explícito ao ex-senador democrata Barack Obama em 2008 foi fundamental para eleger o atual presidente da maior superpotência do mundo. Durante a campanha, cerca de 19 mil pessoas se reuniram em Iowa para ouvir o discurso político de Oprah em 2007, num dos comícios mais lotados da eleição mais acirrada dos últimos tempos. Dá para entender direitinho porque ela é uma das personalidades mais influentes do século XX.

Mas foi preciso tomar uma longa e tortuosa estrada para chegar onde chegou. Filha única de mãe jovem e solteira, Oprah foi abandonada por sua mãe e criada pela avó paterna numa região de extrema pobreza do Mississipi. Era tão precoce que aprendeu a ler sozinha. Apesar de inteligente e comunicativa, foi rejeitada por ser uma criança obesa e ter uma inteligência acima da média. Saltou do jardim de infância direto à terceira série tamanha maturidade. Excluída, sem amigos, pais, e sem brinquedos, buscou alento nos livros e nos estudos da Bíblia.

Só calçou seu primeiro par de sapatos aos 6 anos de idade. Mas sua infância teve mais capítulos traumáticos: foi violentada por um primo quando tinha 9 anos e não contou nada a ninguém até ter quase 30 anos. Também foi molestada sexualmente por um amigo da família e por um tio, e chegou até a pensar que isso era normal, que a vida era assim.

Após uma adolescência igualmente complicada, foi viver com o pai em Nashville e passou a ter um rumo e muitos livros para ler. Como então Oprah alcançou o estrelato? Seu talento nato para a comunicação deu aquele empurrãozinho. Aos 17 anos, venceu diversos concursos de beleza e foi coroada Miss, por sua beleza e espontaneidade. Foi convidada para uma estação de rádio local e depois de terem a ouvido, foi contratada para trabalhar como locutora.

Dois anos depois, já na universidade, foi contratada pela televisão de Nashville: era a primeira mulher e primeira âncora negra do canal. Anos depois foi chamada para apresentar um programa matinal chamado A.M. Chicago, que alcançava pouquíssimos pontos de audiência. Foi então que a carreira televisa de Oprah teve uma ascensão meteórica: após conquistar uma audiência fiel com todo seu charme e carisma, logo se viu apresentando um talkshow de sucesso rebatizado como The Oprah Winfrey Show.

The Oprah Winfrey Show se transformou num dos talkshows mais assistidos de todo o mundo, quebrando recordes insuperáveis e distribuído em mais de cem países por duas décadas. Tudo porque Oprah tratava de assuntos sérios, banais e polêmicos com a mesma naturalidade que um bate-papo entre amigos. Oprah era a nossa melhor amiga, não? Chorei um bocado no seu último programa.

Consigo me comunicar com tantas pessoas porque sou igual a todos e não faço segredo disso. Tive uma infância complicada, fui violentada, batalhei muito, relacionei-me com homens que me fizeram mal, vivo fazendo dieta e não tenho vergonha de declarar tudo pessoalmente”.- Oprah.

Sua influência foi tanta, que tudo o que apresentava em seu programa virava um sucesso da noite para o dia. Praticamente todos os livros recomendados (ou “abençoados”) por Oprah passavam rapidamente para a lista de best-sellers do país.

Foi no seu sofá que, em entrevista, Michael Jackson revelou que sofria abusos do pai, falou sobre sua doença, o vitiligo, e se manifestou, pela primeira vez, sobre seus relacionamentos e sexualidade. Ali vimos Tom Cruise pirar e declarar seu amor estranho por Katie Holmes, Whitney Houston admitir sua dependência química e milhares de fãs serem surpreendidas por prêmios incríveis, como um carro para cada mulher na plateia. Oprah encerrou seu programa ano passado, após 25 anos divertindo e ajudando muita gente, como nas ações beneficentes em ajuda aos sobreviventes do Katrina, furacão que assolou Nova Orleans, sua cidade de origem.

Seu papel como voluntária, seja construindo casas em regiões carentes, ou criando uma escola para meninas na África – a Oprah Winfrey Leadership Academy For Girls foi uma promessa à Nelson Mandela -, Oprah ajuda estudantes a obter uma melhor educação com um programa de financiamento privado. A Fundação Oprah Winfrey segue expandindo esforços humanitários nos países subdesenvolvidos.

E a rainha do showbusiness americano ainda tem tempo para seguir por caminhos inexplorados. Seu próprio canal de TV OWN, uma joint venture entre sua companhia Harpo e a Discovery Communications completou um ano no topo. Ela, obviamente é a CEO e criativa por trás do canal. Sua O Magazine, revista lançada em 2000, é outro sucesso carimbado pela diva que continua registrando grande circulação lá fora.

Vale lembrar que além de excelente jornalista e produtora de TV, Oprah já foi vencedora de vários prêmios Emmy e foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante em sua estreia no cinema em 1985, no drama de Steven Spielberg “A Cor Púrpura”, que 20 anos depois virou espetáculo na Broadway, produzido por ela. Ano passado, foi homenageada com um Oscar honorário da Academia, o Prêmio Humanitário Jean Hersholt, em reconhecimento ao seu envolvimento em causas filantrópicas, uma honraria e tanto.

Eu acho que ela merece um Prêmio Nobel da Paz, e vocês?