Cultura | Mães Históricas
A figura materna é representada com destaque nas manifestações culturais e religiosas de nossa sociedade ao longo da história. Das mitologias à Bíblia, podemos perceber a importância e reconhecimento conferidos às mães: mulheres fortes, de atitude, dedicadas, abnegadas, que desafiam suas realidades em defesa de seus filhos. Vamos relembrar algumas delas?
Muito antes do Olimpo
Já na Grécia Antiga, predominava a crença politeísta formada por um panteão de deuses, semi-deuses, heróis e criaturas fantásticas. De acordo com a mitologia grega, tudo tem início com o Caos, do qual se originam as primeiras divindades: Eros, do amor universal; Tártaro, da escuridão primeva; Érebo, a escuridão profunda; Nix, a noite; e Gaia, personificando a Terra. Gaia representa a figura materna primordial, que deu forma ao Caos e originou a Urano (representa o céu estrelado) sem intermédio masculino. Unidos por Eros, Urano fecunda Gaia, gerando 12 titãs, além de Cíclopes e Hecatônquiros, e os aprisiona em seu ventre. O mais novo dos titãs, Cronos, revolta-se contra o pai e, com uma foice produzida nas entranhas de sua mãe, o castra e liberta a todos os seus irmãos.
Mas engana-se quem pensa que Cronos foi diferente de seu pai. Ele torna-se rei dos titãs e casa-se com sua irmã Reia. Mas assim que seus filhos – os primeiros deuses olímpicos: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posêidon e Zeus – nascem, ele os devora, com medo que algum deles os destronasse. No entanto, Reia consegue proteger Zeus, dando a Cronos uma pedra enrolada em tecido no lugar do filho. Ele e Cronos entram em guerra pelo trono dos deuses e, com a ajuda dos Cíclopes, Zeus sai vencedor e obriga o pai a vomitar seus irmãos.
O Panteão de Aasgard
Quem assistiu o filme “Thor”, o herói e deus do trovão da mitologia nórdica, aprendeu um pouquinho sobre a lenda de Aasgard e as crenças pré-cristãs dos povos escandinavos. Mas como devem ter reparado, os papéis femininos não recebem tanto destaque quanto os grandes deuses-guerreiros na mitologia nórdica. Tanto, que a única figura materna de Aasgard é Freyja, esposa de Odin e Rainha do céu, com conhecimento do futuro dos deuses e dos homens.
Freyja acumula várias “funções”: é a deusa da fertilidade, do casamento, da família, do destino e das crianças, além de ser considerada a Grande Mãe dos povos nórdicos. Como sorte nunca é demais, fica mais uma dica para as moças casadoiras: sexta-feira é o dia da semana dedicado à Freyja, uma boa data para subir ao altar.
A representação maternal na mitologia egípcia fica a cargo de Ísis, protetora da natureza e da magia. Ísis deu luz ao Sol, representado por Horus, sendo considerada a deusa da maternidade, da simplicidade e da fertilidade.
Diz a lenda que as cheias do Nilo são as lágrimas de tristeza pela morte de Osíris, seu marido, morto por seu irmão Seth, a quem a deusa ressuscitou com sua magia. Ela também é conhecida como deusa das crianças, “de quem todos os começos surgiram” (ajudinha da Wikipedia!).
A deusa-mãe hindu
Está achando muito complicado entender as relações divinas das mitologias acima? É porque você ainda não conhece a crença hindu. Para o hinduísmo, Aditi é a deusa-mãe que representa o céu, o inconsciente, o passado, o futuro e a fertilidade. Sabe aquela história que na Índia a vaca é sagrada? Pois bem, é porque esse animal representa Aditi. Ela é a mãe dos deuses hindus e, para confusão maior, algumas obras a citam como mãe de Daksha, o deus criador ancião, e outras como filha dele – como se tivessem nascido um do outro. Ela é considerada a protetora dos castelos e, como a maioria das deusas maternais, das crianças.
Muitos outros povos tem em sua mitologia a figura feminina, maternal, como princípio das coisas. Astarte, No Oriente Médio, representa a soberana do mundo, que eliminava o velho e gerava o novo; Nu-Gua, para os chineses, é a deusa criadora da humanidade, representando a ordem e a tranquilidade; Amaterazu, a deusa japonesa do Sol, é de quem descendiam os imperadores; na América pré-colombiana, Tlauteutli para os astecas e Ix Chel para os maias, encarnavam o mito da criação.
Cada cultura, a seu modo, destacou, homenageou e reverenciou a importância do papel feminino e principalmente materno na humanidade. Não precisamos mais levantar estátuas ou fazer sacrifícios para essas representações femininas, mas é muito bacana nos inspirarmos nessas homenagens mitológicas à maternidade para repensar o quanto temos sido agradecidos àquelas que nos carregaram nove meses na barriga, nos deram à luz, nos criaram com todo amor e carinho, não é mesmo?
Mães da Bíblia
Como fui criada em lar cristão, cresci lendo e ouvindo passagens da Bíblia que tem um significado especial pra mim. Entre elas, a história de duas mães me chamam a atenção: Joquebede e a princesa Merris (como em alguns textos não-bíblicos é chamada a filha do Faraó), respectivamente as mães biológica e adotiva de Moisés. Ainda que muitas pessoas não acreditem nessa história, são lindos exemplos de amor materno.
A história de Moisés é comum ao Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Ele é considerado um dos grandes líderes religiosos, além de patriarca, profeta e santo do Antigo Testamento. De acordo com a Bíblia, Moisés foi o escolhido de Deus para libertar o povo judeu da escravidão e guiá-lo na fuga do Egito para a Terra Prometida, além de ter recebido as Tábuas da Lei de Deus, com os 10 Mandamentos. No entanto, para Moisés ter chegado a ser o líder que foi, precisou da coragem de sua mãe biológica Joquebede e de sua mãe adotiva, a filha do Faraó, para protegê-lo quando ainda era recém-nascido. Naquela época, estima-se que por volta de 1510 a. C., uma lei faraônica impunha aos escravos a morte de todos filhos recém-nascidos do sexo masculino, para controlar o crescimento da população israelita em seu reino. Joquebede tinha acabado de dar à luz a um menino e na tentativa de salvá-lo, acomodou-o em uma cesta e a colocou no rio, pois sabia que a princesa se banhava perto dali e poderia protegê-lo. Foi o que aconteceu: a filha do Faraó encontrou a criança e, desafiando a ordem de seu pai, adotou o menino israelita e mandou chamar uma escrava para cuidar dele, tendo sido a própria Joquebede a se apresentar para a tarefa.






