Hoje vamos falar do amor. Do amor por sapatos.
Era uma tarde qualquer, de uma vida qualquer e juro que pretendo chegar em algum lugar com essa história porque hoje é dia de falar de amor, nem que seja de um qualquer.
Tinha saído apenas para almoçar com amigos e era para ser rápido e sem consequências. Mas quando descuido de mim por 5 minutos tá feito o estrago (algum estrago!) quando vejo já tô envolvida, fazendo planos e com uma sacola na mão me sentindo a pessoa mais realizada do mundo todo e inteiro. O consumo traz essa paz de amor. Só que sem o amor. Sei que quando dei por mim já estava escolhendo o melhor lugar do armário para ele e empurrando todos os outros para o fundo. Tarde demais, ele ia me desnortear e me ferir com carinho, igual a música da Marisa Monte.
Mas durante um curto espaço de tempo ele me fez flutuar nos seus saltos enormes, lindos e perigosos e é sobre isso que quero falar. Sobre flutuar, flutuar para depois cair. E levantar. Porque o amor é uma caminhada cheia de tropeços.
E foi assim que começou minha história de obsessão com um belíssimo Diane Von Furstenberg com o qual vivi um amor à primeira vista, com promessa de felicidade silenciosa. Eu sabia que seus saltos altíssimos não eram para mim, que tenho três hérnias e caio com facilidade pela vida. Tava na cara que ele não era feito para realidade. Não para minha.
Mesmo assim ele chegou cheio de si desmontando em segundos todo um esquema neurótico/virginiano de uma vida inteira dedicada a separar tudo por cores e modelos. Não importava mais nem cor e nem modelo, só o espaço, que agora seria todo dele. Condenou todos os outros a um esquecimento instantâneo.
Eu só precisava dele, que não desapontava e ficava lindo com todas as produções, embora machucasse.Virei refém da sua beleza desconfortável e da inveja feminina que deve ser a décima primeira praga do Egito. Sem o Egito. Ia linda com ele para festas e voltava sempre destruída, porque não era fácil manter o equílibrio. Mas eu fingia que não via porque não queria outro. Couros laceiam, cedem e encaixam melhor com o tempo. Era nisso que me apegava. E insistia.
Até que uma noite depois de dançar por horas ao som de “Gonna get along without you now.” Ele me derrubou, despenquei lá de cima (puf!) e tive que desistir, porque nosso amor se mostrou dolorosamente impossível. Foi um tombo feio que me fez repensar tudo e desde então, busco outro tipo de amor : um que me faça flutuar mesmo sobre a luz da realidade, que não machuque (tanto!) e seja confortável em qualquer que seja a situação. E é esse amor que quero celebrar hoje. Viva.



