Casa Tpm | Você é livre mesmo?

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Neste fim de semana, nos dias 4 e 5 de agosto, aconteceu em São Paulo, a Casa Tpm (em um espaço lindo no bairro Pacaembu, o Nacional Club), com o apoio do Update or Die e do Plush Blush (veja algumas fotos no nosso perfil do Instagram, @plushblush).

A foi um lugar para brindar e pensar o universo feminino sob as mais diferentes perspectivas. Padrões de beleza e de comportamento, estereótipos, novas conquistas, novos papéis, novas responsabilidades. Tudo que a gente conversa com as amigas, ou leva para a sessão de terapia, estava lá: nossos medos, receios, dificuldades, alegrias, dúvidas e anseios.

No meio desse caldeirão de ideias, com participações escolhidas a dedo, em uma curadoria impecável da Revista Tpm, fica difícil escolher qual foi o meu tema preferido. Teve meu muso Xico Sá falando sobre depilação, em uma contribuição aplaudida e divertidíssima. Teve Paula Lavigne falando sobre as dificuldades em ser mulher, com declarações polêmicas e honestas. Teve Laerte que, ao contrário, reafirmou seu encantamento por aquilo que é conhecido como o feminino, embora defenda que essa distinção entre gêneros devesse ser afrouxada. Teve Bob Wolfenson refletindo sobre a imagem da moda ao longo dos anos e Chris Nicklas dando um lindo depoimento sobre envelhecer com beleza (e sabedoria). Teve Ronaldo Fraga, Carol Ribeiro e Marília Carneiro discutindo se a moda aprisiona ou liberta. Teve Gaby Amarantos falando da ditadura da magreza (ela que é a capa da nova edição da revista) e Renata Leão conversando com as meninas do “Mothern” sobre maternidade.

Enfim, foi uma overdose de reflexões bacanas e transformadoras. Uma sementinha dourada que a Tpm plantou em todo mundo que esteve presente, ou que acompanhou pela internet.

Mas sempre tem aquele momento de catarse mais profunda, que pega a gente de jeito. O meu aconteceu durante a discussão com Fernando Luna, o gênio Laerte/Sonia, a antropóloga Miriam Goldenberg e a atriz/diretora e colunista Maria Ribeiro. A conversa foi super rica do começo ao fim, passando por quase todos os temas mais relevantes para as mulheres. E para os homens que amam as mulheres também.

A cereja do bolo, para mim, foi ouvi-los falar, em uníssono, que a liberdade que conquistamos não pode ser a nossa nova prisão. Estava lá o Laerte, prova viva de que podemos ser o que quisermos, ao ser um homem que namora uma mulher e se veste “como mulher”. Uma prova de que o espaço para ser “diferente” já existe. Existe também preconceito, é claro. Mas se existe espaço, então vamos lá ocupar o nosso.

De outro lado, ser tudo aquilo que nós quisermos pode parecer uma armadilha. Se eu posso ser astronauta, se eu posso ser solteira, com uma vida sexualmente ativa, sem amarras morais, se eu posso escolher não ter filhos, se eu posso escolher não usar 38, eu posso também, por que não, escolher me casar de véu e grinalda, ter uma família tradicional e até, olha só que ousadia, ser “dona de casa”.

Pensar nisso, para mim, valoriza a maior liberdade que nós conquistamos, e que não é a da igualdade no mercado de trabalho ou na vida sexual: é a liberdade de escolha.

Ora, se eu posso ser quem eu quiser, eu posso, inclusive, escolher ser uma mulher “à moda antiga”. Coisa que muitas de nós não conseguem mais se permitir, quase envergonhadas pelo “retrocesso”. Virou uma ditadura às avessas. Antes, sonhávamos com escritórios, salários e happy hours animados. Hoje, algumas, clandestinamente, sonham em aprender a bordar, costurar e cozinhar.

Essa parte do debate me comoveu por ver, no palco, uma mulher mais velha, que teve casamentos e amores, mas não filhos, e que é bem sucedida, linda e inteligente, como a Miriam, conversando com uma mulher mais nova, que teve dois casamentos e dois filhos, também bem sucedida, linda e inteligente. E perceber que ambas fizeram escolhas diferentes. E ambas parecem felizes, à medida do possível, com os caminhos que tomaram. Com questionamentos e devaneios outros, mas também alguma felicidade sim.

Isso me fez lembrar de um filme interessante, “O Sorriso de Mona Lisa” (2003), que discute muitos dos temas que foram também abordados na Casa Tpm e são tão caros a nós, mulheres. Eu queria transcrever um diálogo especial, mas quer saber? Vale a pena rever inteiro.

E eu digo “alguma felicidade” porque, né, quando somos plenamente felizes? Essa, aliás, é uma questão filosófica que habita todo ser humano, está longe de ser uma exclusividade feminina. Laerte disse muito bem, ao responder uma das perguntas legais que foram feitas no final, que o homem, mais do que aprender a ouvir melhor as mulheres, precisa aprender a ouvir ele mesmo. O homem, em geral, não se ouve nada. Não se pensa.

Toda generalização é um erro, claro, mas gostei muito quando ele chamou atenção para o fato de termos classes de direitos e ideologias tão definidas para as mulheres, os gays, os negros, a classe trabalhista, os partidos políticos, os sertanejos ou os roqueiros, quase todos os grupos e tribos com um denominador forte em comum. Mas e os homens? Os homens quase não têm, nem buscam ter, este espaço. Existem exceções sim, mas são exatamente isso: exceções. Em regra, Laerte está certo.

Talvez os homens sejam os mais perdidos nesse novo momento, onde as mulheres querem um cara sensível, companheiro, inteligente, dedicado, que ajude em casa – e que saiba trocar o pneu (como a Maria lembrou tão bem e o Laerte, brilhante, emendou: “eu também quero esse homem!”).

Ou seja: ainda valorizamos o estereótipo da virilidade, da masculinidade, mas queremos, de outro lado, um homem mais “feminino”, gentil, prestativo e delicado. Queremos tudo isso em uma pessoa só. Pura utopia.

Se lutamos tanto para nos libertar dessa imagem em relação às mulheres, se, como diz o Manifesto Tpm, não somos as únicas a não dar conta de tudo hoje, já que acumulamos mais papéis do que a física permite desempenhar, então não seria cruel ter essa cobrança em relação ao sexo oposto? O faz-tudo?

Será que não estamos boicotando todo relacionamento com expectativas tão irreais?

Fidelidade, casamento, filhos, amamentação, vaidade, beleza, inteligência, cobranças sociais, cobranças internas, tudo passou por esse debate com bom humor e substância.

Saí mexida e contente em perceber que podemos tratar dessas questões de uma maneira menos óbvia e mais amigável. Menos teórica e mais leve. Menos rígida e mais verdadeira. Menos política e mais séria.

E, como teve muito mais, acompanhe nossos próximos posts sobre a Casa Tpm e aceite o nosso convite para continuar pensando sobre questões tão preciosas para que sejamos não apenas mais livres, mas, principalmente, mais livres e felizes. ;)

Para assistir a essa conversa na íntegra, vá até o canal da Revista Tpm no YouTube. Tem um álbum na fanpage com muitas fotos do evento também.