Casa TPM | Nenhum sutiã foi queimado

Como conseguimos (a façanha de) ser mulher hoje em dia?

Essa é uma das grandes interrogações que pipocaram na minha cabeça depois de uma experiência mais do que incrível na Casa TPM, evento da Revista TPM em São Paulo que tanto falamos por aqui (aqui e ali também). Nem preciso dizer o tamanho do orgulho (maior que o oceano?) para a gente do Plush Blush em dizer que apoiamos essa iniciativa tão poderosa.

Voltando à interrogação anterior, respondo: a gente só consegue ser mulher hoje em dia graças ao esforço de se reinventar e evoluir o tempo todo. Mas qual é a dessa evolução? Graças à , pudemos discutir velhas e novas questões sobre a mulher e seu papel. Todos os debates provocaram novos pensamentos e visões sobre questões velhas e surradas, como a igualdade e liberdade dos sexos.

Já dizia Simone de Beauvoir: “Enquanto o homem e a mulher não se reconhecerem como semelhantes, enquanto não se respeitarem como pessoas em que, do ponto de vista social, política e econômico, não há a menor diferença, os seres humanos estarão condenados a não verem o que têm de melhor: a sua liberdade.”

Muito antes de Simone de Beauvoir falar sobre igualdade e liberdade, a condição feminina sempre foi colocada em xeque, mesmo que absorvendo as metamorfoses da história da humanidade – desde os tempos das deusas antigas da fertilidade até os dias de Leila Diniz. Agora um novo enredo está sendo escrito, e desta vez, pelas próprias mulheres.

Vale buscar a resposta nos nossos ancestrais. Na Pré-História, a figura feminina não era dominante, mas as sociedades eram centradas nela por conta da fertilidade. Hoje é muito óbvio para nós que a mulher não pode engravidar sozinha, mas ao ignorar a mecânica da procriação, diversas culturas antigas idolatravam as mulheres de forma que elas eram elevadas à categoria de divindidades apenas pela habilidade de procriar.

Por incrível que pareça, escrituras antigas já mostraram que a influência feminina na sociedade já desfrutou dos mesmos direitos que muitas vezes eram reservados aos homens (como governar e liderar comunidades). Se em tese, os direitos iguais eram regra no passado, por que razão as coisas mudaram? Uma possível explicação é a mudança de percepção sobre os mecanismo de reprodução – graças à observação do comportamento dos bichos, o papel do macho na reprodução passou de coadjuvante a protagonista.

Com o passar dos séculos, houve diversas tentativas de resgatar essa igualdade. Não é preciso viajar muito no tempo para perceber essa luta: em 1968, nos EUA, enquanto a Miss América daquele ano era coroada, uma centena de mulheres protestava do lado de fora do teatro, eternizando um episódio que, na realidade, nunca aconteceu: a queima de sutiãs em praça pública.

Diferente do que é sempre relacionado ao movimento feminista, esse manifesto foi contra a ditadura da beleza que estava sendo imposta às mulheres do seu tempo. Diversas americanas saíram às ruas de Atlantic City dispostas a queimar símbolos da feminilidade da época, como revistas femininas, sapatos de salto alto, detergentes, cílios postiços e os benditos sutiãs.
A queima nunca chegou a ocorrer, já que o uso de fogo foi impedido pela segurança local.

Os motivos para o protesto? O militarismo, racismo e sexismo, reflexos de um país que passava por um dos períodos mais turbulentos de sua história (a invasão do Vietnã e a morte de Martin Luther King). O movimento feminista nada mais foi do que uma reinvindicação do direito ao “american dream”: a tal da igualdade de direitos e a liberdade de expressão.

O manifesto de Atlantic City serviu para combater aqueles ideários de uma sociedade completamente dominada por homens de elite, que impunha papéis secundários às minorias, como mulheres e negros. No caso das mulheres, os modelos-padrões eram os irritantes padrões femininos (bíblicos) retratados exaustivamente em filmes, novelas e romances (como até hoje). De um lado a mocinha Maria, a mãe, virgem e imaculada; do outro, Eva, a pecadora, sedutora, lasciva.

Não é segredo que esses modelos, assim como toda a elaboração da identidade feminina, partiram da visão masculina, e não da nossa percepção sobre si mesmas. Afinal, a história do mundo é a história dos homens. Nenhuma das narrativas históricas contemplou o feminino, nem contou como viveram as mulheres, o que pensaram, o que fizeram.

É muito claro que há uma herança cultural que excluiu as mulheres da vida pública – o que não impediu que em cada momento elas exercessem seu poder. Ele foi exercido na medida do (im)possível. Vide a bruxaria na Idade Média: ao fazer as pessoas sararem, as bruxas – verdadeiras curandeiras – desafiaram o poder de salvação restrito à Igreja. Elas sim, diferente dos sutiãs, acabaram queimadas na fogueira.

É com essa herança cultural que as mulheres se aprisionaram na aparência e na vontade de ser perfeita, tentando cumprir o combo de modelos-padrões: a mulher bem-sucedida, a mulher casada, a mulher gostosa e a boa mãe.

Não só a publicidade quanto grande parte das revistas direcionadas ao público feminino pregam: envelhecer é proibido, engordar é crime e não usar os looks must-have da última estação é brega. Como ser solteira se você pode aprender mais de 150 maneiras para enlouquecer seu homem? Parece piada, só que ao contrário.

Dar conta de trabalho, família e amor já uma missão quase impossível. Ficar magra, com a depilação sempre em dia, com o cabelo e pele incríveis e ainda equilibrar o look da última moda num salto agulha é algo bem fora da nossa realidade. Sim ou com certeza? Talvez nas novelas de Manoel Carlos a Helena esteja sempre penteada e de bom humor. Mas a gente tem TPM e fica louca religiosamente uma vez (ou mais) por mês, né? Ou sou só eu?

Hoje, se uma mulher não consegue cumprir todos esses padrões, é invisível para a sociedade. Logo, torna-se uma mulher com carreira em crise, divorciada, gorda e péssima mãe (ou mãe ausente). É isso mesmo o que a gente quer?

Principalmente na cultura brasileira, a mulher tem não só o corpo como um capital, mas o marido. Se o corpo é um capital, tanto para o homem quanto para a mulher, acaba virando um veículo de ascensão social. Antes casada do que divorciada e gostosa. Quem nunca viu uma mulher se gabar do marido fiel como nunca e dependente como sempre?

No Brasil, ainda hoje, ter um marido é mais valioso para as mulheres do que quase qualquer outra coisa. O marido também é um capital. E em outras culturas, muitas vezes, isso não acontece. As mulheres mais velhas acabam conseguindo se livrar dessa ideia, mas demora muito tempo.” – Miriam Goldenberg, antropóloga (e muito bem resolvida, obrigada) que participou de um dos debates da Casa TPM, ao lado de Laerte e Maria Ribeiro.

Agora é a nossa vez de levantar os cartazes e gritar por essa liberdade das amarras, muitas vezes, impostas por nós mesmas. Ainda estamos muito preocupadas com a opinião dos outros, em provar nosso valor e em responder às demandas sociais de ser a mulher gostosa, a mulher casada, a mulher bem sucedida e a boa mãe. Vamos nos preocupar é em conquistar a liberdade para ser tudo o que desejamos ser.

Resistam aos padrões e inventem sua própria beleza, sua própria moda, sua própria vida.
A liberdade é um capital muito mais valioso do que ser (ou melhor, tentar) ser perfeita. É totalmente possível e aceitável você inventar o que quer ser o tempo todo. Confie e relaxe: você não veio ao mundo para ser malabarista, nem equilibrar pratos. Muito menos para ser “tudo ao mesmo tempo agora”.

Não vamos desperdiçar o tempo tentando ser perfeitas, nem tentando ser homens. Ser uma mulher livre é bem melhor do que tudo isso. Missão dada é missão cumprida, certo? ;)