
O dia já clareou e parece que o ontem passou. Vejo um céu esbranquiçado querendo ficar azul e um sol chegando tímido e bem devagarinho, por entre nuvens macias que eu queria poder tocar e te dar um pedaço, deixando o aroma dessa chuva pra trás. Chuva que vem pra limpar, lavar, levar. As gotas de água delicadamente depositadas em cima de cada folha já amarelada pelo verão quente refletem luz e brilham feito purpurina, avisando que, se tudo der certo, logo logo elas vão secar com o vento que bate e leva pra longe qualquer tédio, como um remédio pra dor.
Aproveito então esse espetáculo de pequenos pontos de brilho que acontece do lado de fora da minha janela e sinto o cheiro de terra molhada e cimento secando – das minhas sensações favoritas na vida. Não só as cores, mas a gente também fica mais forte, e as flores se aprumam de novo, como moças perfumando o colo e ajeitando o decote do vestido. Tudo isso pra ver o sol raiar seus raios de luz furta-cor e calor, e invadir as casas e cortinas, anunciando que o amanhã chegou e que nasce um dia novo dentro da gente todo dia.
A gente não precisa ver a vida da janela, se incomodar com o calor ou se abrigar do sol. A gente não precisa ter medo de chuva, deixa molhar. Abre essas portas e deixa toda a luz entrar por esses olhos que como duas varandas recebem a luz solar. Pisa na grama, espanta o drama, levanta da cama. É tanta vida lá fora que o dia já clareou. Estamos aqui, no hoje e no agora. O dia amanhece e a gente acontece: com os pés no mundo, com o mundo aos nossos pés. Ouço barulho de felicidade na cidade sem limite de decibéis. Um novo dia já raiou. Bom dia, meu amor.
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Veronica Fantonié carioca e escritora, louca por música, vestidos e dias de sol.

Não há mais nada, eu sei. A noite caiu atirada no chão e só restou uma madrugada depois daquela cantada e dos olhos vermelhos de tanto chorar esperando o luar se deitar e o dia clarear. Por isso essa distância de um oceano pacífico sem paz entre nós. Por isso esse mar agitado balançando meu barco e o meu corpo enjoado nesse vai-e-vem que não leva a nenhum lugar. Por isso essa ponte engarrafada que não me deixa chegar do outro lado pra ver o que há. Por isso nosso aeroporto fechado e nossa aeronave parada, sem aterrissar ou decolar. Por isso estamos assim perdidos no meio do caminho sem saber se o melhor é partir ou chegar. Por isso as ruas cheias de gente que a gente não conhece e não sente se atravessando por entre calçadas que encontram ruas por onde a gente não vai se esbarrar. Por isso talvez um dia a gente se lamente.
Por isso as plantas, os dentes, os pelos e a saudade crescem enquanto as lágrimas descem e os vazios são preenchidos por outros tudos ou outros nadas que a gente encontra pela estrada. Por isso o meu corpo despido de roupa e sentido e a sua voz rouca trancada na boca. Por isso tanta coisa acontece e a gente se esquece de cuidar do que é nosso. Por isso eu prevejo corações refeitos depois de tantos encontros imperfeitos e da euforia misturada à alegria que vem do estar. Por isso somos sementes, esperando a hora certa de brotar. Por isso o silêncio que eu ouço faz tanto barulho nessas paredes aquecidas pelo calor desse sol que parece gritar com nós dois – e não pelo calor dos nossos corpos abraçados como deveria ter sido. Por isso esse mesmo sol parece querer secar o solo fértil onde você plantou flores pra eu passar, até que as pétalas e folhas se amarelem, fazendo toda vida, transformação e água evaporar.
Por isso a gente talvez apenas vire nuvem e possa finalmente chover em outro lugar.
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Veronica Fantonié carioca e escritora, louca por música, vestidos e dias de sol.

No mês de agosto ainda não havia gosto, apenas o seu rosto a me mirar com esses olhos que me derretem os poros e essa boca que me esquenta a roupa num calor que deixa a mente quente e o pulso acelerado, como quem comete um pecado, mas é só o ponto de ebulição. É como acordar pra vida e botar o bloco na avenida, tem uma hora que não tem mais saída: a gente joga fora a fantasia pra ostentar no peito a nossa mais esplendorosa alegoria – o coração.
No meio da confusão, fomos dois corações na contramão. No meio do breu, fomos só você e eu. No meio da multidão, você me pega pela mão e cola seu corpo no meu num movimento lento. Por um momento, seus dedos me tocam a nuca, eu me derreto feito açúcar, devagar eu encontro teu queixo que me tira do eixo, eu deixo. De mão dada já não penso em mais nada. Vamos lá pra fora onde há vida acontecendo agora, tem uma lua brilhando no céu do libido colorido dos nossos sentidos, ruídos, fluídos. Tem cheiro de mar pra saudar e um vento gelado pra secar nossos corpos suados na madrugada embriagada de estrelas, dezenas delas a se apagar no céu nu, seu nu. Deixa eu cantar pra nós dois, deixa vir o que vem depois, amor a dois, chuva de arroz.
Já não sei ao certo quando é hoje, já não sei quanto tempo faz. Só sei da paz que é ancorar no teu cais. Sinto sua maresia e seu gosto de sal a me salivar. Vejo os seus olhos a me mirar por onde quer que eu vá. Sua voz ecoa, atordoa, abençoa. A gente se cobre de chamego, sem medo ou segredo. A gente fica à toa numa boa, sua mão segura a minha cintura, o meu quadril, em novembro, dezembro, março ou abril. De janeiro a janeiro. O ano inteiro. É fevereiro.
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Veronica Fantonié carioca e escritora, louca por música, vestidos e dias de sol.

Era uma manhã nublada. Soprava um vento gelado, desses que ardem as bochechas e congelam a ponta do nariz. Ele escondia as mãos nos bolsos da calça, caminhando entre as folhas secas que formavam um tapete amarelo e vermelho no chão. Em vão, tentava proteger-se do frio em um passo acelerado que o levava de uma calçada a outra.
Chegou antes do previsto. Sentou-se em um banco de madeira, mascava chiclete de canela e contava os minutos, enquanto observava donos sendo guiados por seus cachorrinhos e babás empurrando carrinhos de bebê. Naquele pedaço de verde perdido no meio do espaço urbano, seu pensamento voava longe e seus olhos procuravam ao redor. Foi quando de longe, ele a avistou.
Colorida e como se flutuasse, ela tinha um jeito leve de andar. Ainda distante, num aconchego, ela lhe sorriu com o olhar até que se aproximou. Com as unhas pintadas de vermelho e a boca pintada de rosa, chegou bem perto e quase pode tocá-lo. Deu mais um passo, suspirou e entregou-se em um abraço apertado, longo e silencioso. E o sol arriscou brilhar seus primeiros raios, que delicadamente foram abrindo fendas por entre as nuvens e aquecendo tudo o que estava sob elas. A luz era quente e penetrava entre galhos e folhas, alcançando também aqueles dois corpos, confusos diante de um clarão.
Não tinha mais frio, não tinha mais dúvida. “Tenho 29 beijos pra lhe dar”, ele disse.
Ela aceitou cada um deles.
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Veronica Fantonié carioca e escritora, louca por música, vestidos e dias de sol.
Checa o celular, joga aquela partidinha de Song Pop antes de dormir, manda um Whats App enquanto escova os dentes… será que estamos ficando doidos? E aquele ritualzinho gostoso antes de dormir? Aquele ritual de tomar um leitinho, escovar 100 vezes o cabelo, fazer uma prece, arrumar o cobertor?
Em 1947, a escritora Margaret Wise Brown, com ilustrações de Clement Hurd, escreveu um clássico de uma geração nos Estados Unidos: um livrinho chamado Good Night, Moon (“assista” ao livrinho aqui). É uma historinha curta, pra fazer as crianças dormirem. Nela, o narrador vai dando boa noite para todos os objetos presentes no cenário. Uma coisa fofa.
Foi baseado nesse livro que David Milgrim (no caso, com o pseudônimo Ann Droyd) fez uma espécie de manifesto sobre nossa dependência do mundo digital. E é quase uma cerimônia de desapego digital noturno para crianças (e, vamos confessar, pra gente mais grandinha como a gente).
O mais irônico é que esse post foi escrito antes de eu dormir. Boa noite, Plush Blush.
Francine Guilené feliz. Também é contadora de histórias e curandeira de conteúdo.

Faz frio e nem parece que é verão. Pouco saio de casa. Na cama eu leio e assisto o tempo passar enquanto curo minhas noites de insônia com chá e cartas que eu escrevo e nunca vou enviar. Ando abatida como passarinho com asa ferida. Espero sarar.
Nas ruas, ando a passos largos e apressados, me esquivando dos pingos de chuva que me caem sobre a pele e saltando poças d’água que se acumulam junto ao meio fio. Eu me esquivo também de gente, de guarda-chuvas, de olhares. Evito possíveis bom dias e sorrisos amarelados que brotam nos lábios do outro lado. Evito palavras vazias que fogem das bocas mesmo quando não são desejadas. Ando rodeada de pessoas que eu nem sei quem são e o cinza do céu ameaça qualquer raio de sol que se arrisque a brotar entre as nuvens pesadas. Não é outono, não é inverno, não é primavera. É um dia cinza após o outro e, ainda assim, é verão.
No caminho de casa eu me lembro de quando nós éramos nós e nascia um verão por dia na janela do que era só nosso e estava em edificação. Tempo em que tínhamos corações férteis e um jardim inteiro brotando pra receber borboletas coloridas e beija-flores velozes e sedentos por mais uma flor, mais um beijo. Hoje somos sós, somos somente nós, nós atados esperando solução. A cada dia você coloca mais um tijolo nessas paredes que te protegem de mim e protegem a mim de você, como se houvesse alguma coisa sua nesse mundo a qual eu devesse temer, como se houvesse alguma coisa em mim que eu ainda não tivesse dado a você.
Eu te vejo erguer esse muro alto sozinho, esquecendo que juntos, já fomos, um dia, construção. Você se trancou aí dentro, eu me tranquei aqui fora. Com o coração em obras, sou andorinha sozinha te esperando pra fazer verão. Derruba essas paredes, põe abaixo esse muro. Sai daí de dentro. Vem dançar no meu quintal.
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Veronica Fantonié carioca e escritora, louca por música, vestidos e dias de sol.

Tenho um baú bem perto da cama e uma mala no alto do armário. No baú eu guardo livros, nos livros eu guardo rosas secas. Na mala eu guardo o gosto de chegar mais perto do sol. Guardo vestidos no armário e sapatos fora das caixas. Nos vestidos eu guardo curvas. Nos sapatos eu guardo a poeira do chão. Nas caixas eu guardo cartas, cartões, bilhetes: papéis. Nos papéis eu guardo sonhos rabiscados, um futuro esboçado, um tanto de passado e de afetos recortados em pedaços e abraços. Nos sonhos eu guardo uma noite, duas, três. No futuro eu guardo passos. Promessas de caminhos e escolhas feitas a quatro mãos, duas bocas e dois corações. No passado eu guardo tanta história, lembrança, memória. E como se o passado se escondesse e reaparecesse, eu me lembro do que foi e do que ainda será. Nos afetos eu me guardo, me perco, me acho. E quando eu me encontro eu vejo você, chegando com uma rosa vermelha já despetalando de calor, abrindo a mala no meio da sala, pendurando suas camisas no armário e largando os sapatos aos pés da cama. Sem drama e sem cerimônia, você fica feliz com o sol e se preocupa com a minha insônia. Elogia o meu vestido, espalha seus papéis sobre a mesa de centro, diz que quer ficar comigo, em cima da cama larga o seu livro e me abraça em um abraço que vem de dentro. De um jeito perfeito, vejo um futuro refeito e um projeto de afeto sem fim dentro de mim. No seu peito eu me deito, me ajeito. Já não guardo ou aguardo mais nada. Apenas a sua chegada.
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Veronica Fantonié carioca e escritora, louca por música, vestidos e dias de sol.
Aquele Projeto Secreto de Esquecer Você
por Veronica Fantoni em quinta-feira, janeiro 17, 2013 ·

Penso em atirar todas as suas roupas pela janela do oitavo andar, como nos filmes. Mesmo aquela sua camiseta que você trouxe de Amsterdam e eu roubei pra dormir e nunca mais te devolvi. Penso em juntar todos os seus discos, livros e outras pequenas coisas e colocar na lixeira do condomínio, pro rapaz da faxina ou qualquer outra pessoa levar e fazer um uso mais saudável disso que você chama de tranqueira e eu chamo de lembrança. Latente, constante, cortante.
Vou derramar sua loção pós-barba no ralo da pia do banheiro. Depois eu rasgo os nossos tickets de shows, as nossas fotos, apago os seus e-mails com ideias mirabolantes e as mensagens de “bom dia” no meu celular. Dou fim também ao seu vinho favorito que eu comprei pra te agradar na intenção de qualquer brinde, tarde da noite, com ou sem jantar. Deleto todas essas mp3 que contam as nossas histórias e me fazem lembrar de você acordando com a cara amassada mais bonita da cidade, da América do Sul, do planeta Terra.
E aquele nosso filme, que volta e meia tem reprise na tevê, eu não vou mais assistir. Simplesmente porque eu não dou conta de deitar no braço do sofá e não no seu. Por fim, mando trocar a fechadura, pra não correr o risco de desejar que em uma madrugada qualquer você me apareça de surpresa, me acorde do sonho e me tire o sono.
Sem que pareça coisa de cinema, eu saio de cena e te peço que vá embora. Vai. Vai e leva essa sua tatuagem no braço, o nosso restaurante favorito, as pedaladas na Lagoa e as gargalhadas de fim de tarde depois da praia, ali no Arpoador. Leva o seu cheiro da minha roupa de cama, do meu guarda-roupa, do meu cangote. Leva o filho que a gente não teve, a viagem que a gente não fez, a música que a gente não dançou no nosso casamento que não aconteceu e, qualquer outro plano que a gente tenha feito quando nos embriagávamos de cerveja, de amor ou de luz.
E saiba que, quando você voltar, todas as suas coisas estarão perfeitamente arrumadas, em uma ou duas malas, do lado esquerdo da porta, desse lugar chamado coração.
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Paradise, sunshine, guitars
por Veronica Fantoni em quinta-feira, janeiro 10, 2013 ·

Escrevo pra dizer que você tinha razão, sempre teve e sempre terá. O amor é mesmo essa coisa que cresce pra todos os lados, sem beira, sem limite, sem fronteira. O amor não tem bainha, não tem aresta, não tem pausa pro café. O amor não manda recado, não chega na hora e nem liga avisando que está atrasado. O amor não está na vitrine, nem na prateleira, nem na geladeira. O amor quando não encontra espaço, acaba arrancando um pedaço. O amor não dá em árvore, não chove da nuvem, não nasce com o sol e nem cresce do chão. O amor não chega embrulhado pra presente e nem sempre deixa a gente contente. O amor é poema sem lema, ele mesmo é o tema: oceano onde eu remo e você rema. O amor é a alma batendo palma, pedindo calma. O amor é uma miragem, uma viagem, um redemoinho no caminho, na cadência e com paciência. O amor é quente e aquece a gente. O amor é música pra seguir mais um passo, sem perder o compasso. O amor é melodia que você assovia e arranha no violão. O amor é outono, inverno, primavera e verão. O amor é canção do destino e eu, em desatino, desafino. O amor é coração aberto, mas o coração nem sempre é esperto. O amor é um sorriso sem juízo do paraíso. O amor é tudo isso ou nada disso. Você escolhe, recolhe, acolhe esse amor que cresce que nem a pele e você não digere até que ele se revele, você tome mais um gole e ele te assole. E se um dia o amor brotar, a gente ainda pode regar. Se o amor acontecer, ele pode crescer. Se o amor tocar, a gente pode dançar. Pra guardar na memória essa história de luz solar que fez e faz a gente brilhar. Sometimes an open heart is a broken heart. Paradise, sunshine, guitars.
Para ler ouvindo: Blubell
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Tempo, esse senhor tão bonito
por Veronica Fantoni em quinta-feira, dezembro 27, 2012 ·

Se tem uma coisa que eu aprendi, é a força que o tempo tem. O tempo faz, o tempo traz, o tempo leva. Tem horas que o tempo até espera. Tem tempos que o tempo apressa e faz tudo andar muito depressa. Tem dias em que o tempo me faz carinho e me deixa ficar mais um pouquinho. Em outros dias, o tempo não tem dó e me larga assim tão só.
O tempo me mostra o caminho e me convence que é possível andar sozinho. Mas o tempo também me traz amores e cura as minhas dores. O tempo me brinda com alegrias e com cartas de alforria. O tempo me traz desencanto e também acalanto. O tempo seca o meu pranto.
O tempo me mostra as verdades, o tempo constrói cidades. O tempo me rouba os medos, me tira o azedo. O tempo não é de brinquedo. O tempo me desperta desejo e eu festejo tudo o que eu vejo. O tempo me afeta e me desinfeta. O tempo é atleta, o tempo é poeta.
O tempo me cura o coração, o tempo me faz oração. Tempo pra mim é canção. O tempo me planta sorrisos e eu idealizo, realizo, verbalizo. O tempo me parte em pedaços, me desfaz em cansaços, me degola, me enrola, me assola. E depois me cola.
Acho que o tempo é calvo, e tem rugas de expressão. Penso que o tempo tem um andar ritmado e anda quase sempre calado. Ele tem sardas de sol nas bochechas e na testa traz marcas de preocupação. Mas o tempo tem braços fortes e carrega o mundo nas mãos. O mundo, sempre tão esquisito. E o Tempo, esse senhor tão bonito.
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